Deliberações - Conjuntura Internacional,
Nacional e Plano de Ação
1. O cenário internacional do início dos anos 90 foi
marcado pela crescente hegemonia do ideário neoliberal como modelo de ajuste estrutural
das economias e pela afirmação do domínio político e militar dos EUA, com o fim da
guerra fria e o colapso do chamado socialismo real no Leste Europeu e na antiga URSS.
2. Esse movimento foi acompanhado pela evolução de novos conceitos no mundo do trabalho
(qualidade, produtividade, terceirização, reengenharia, etc.), como resultado do
desenvolvimento e da introdução de novas tecnologias na produção e na administração
empresarial, com agravamento da exclusão social e crescimento da apropriação de
riquezas do sul pelos países do norte.
3. A deterioração social nos países em desenvolvimento e as políticas protecionistas e
excludentes dos países de capitalismo avançado tem levado à instabilidade política, em
particular nos países do leste europeu, da antiga URSS e da África.
Perda de autonomia dos estados nacionais
4. A ampliação do poder das multinacionais tem promovido uma concorrência perversa
entre os Estados. A globalização financeira tem limitado a capacidade dos Estados
nacionais de promoverem políticas expansionistas sob o risco de serem submetidos à
exclusão do mercado mundial de capitais e aos ataques especulativos de suas moedas, com
graves conseqüências para a estabilização.
5. Essa forma de globalização favorece os países que concentram maior poder econômico
e diminui a autonomia política e decisória dos Estados, que, adotando uma inserção
subordinada à lógica da "Nova Ordem Mundial" passam a reduzir impostos, atacar
conquistas sociais e sindicais e submeter suas políticas e legislações aos interesses
dos países centrais.
6. Embora os impactos sociais sejam semelhantes em escala mundial, são os países da
África, América Latina e do Leste europeu que sofrem de forma aguda e acelerada as
conseqüências dos programas de ajustamento econômicos neoliberais do FMI e do Banco
Mundial, agravando a pobreza e levando a miséria e o desespero para extensas camadas
sociais
7. Na América Latina, os modelos de estabilização tem resultado em forte dependência
externa para garantir a estabilidade de preços. E simultaneamente tem sucateado
importantes setores industriais e gerado um crescimento do desemprego estrutural.
8. A continuidade do bloqueio econômico de Cuba pelo Estados Unidos e o apoio destes aos
governos latino-americanos que se orientam segundo o modelo neoliberal visam consolidar
uma nova hegemonia dos EUA no continente. Diga-se de passagem com dificuldades, haja vista
a votação pela OEA de moção repudiando a lei Helms-Burton.
Limites do neoliberalismo
9. Esse avanço do neoliberalismo no entanto não têm sido linear e já apresenta
debilidades, apresentando sinais de enfraquecimento. Uma resistência crescente dos
trabalhadores e de seus aliados, em todos os continentes, têm sinalizado os limites das
políticas neoliberais.
10. Na América Latina, a expressiva votação da Frente Ampla no Uruguai, a eclosão e
continuidade da guerrilha de Chiapas no México, o avanço eleitoral da esquerda em Buenos
Aires e a reativação, ainda que moderada, de mobilizações nacionais promovidas pelo
movimento sindical demonstram que o cenário não está completamente definido em favor do
neoliberalismo no continente.
11. Na Europa e nos EUA, as mobilizações de trabalhadores retomam a cena nacional. Na
França, com a greve geral em defesa da previdência, mais de 30 dias de greve geral do
setor público em Paris. Na Alemanha, país chave da Europa, com as jornadas de luta pelo
emprego, pela luta pela redução de jornada dos metalúrgicos, que com a proposta de
Acordo Nacional pelo emprego pautaram a discussão européia.
12. Outro elemento importante da conjuntura foi a vitória da aliança de centro esquerda
nas eleições italianas, e mesmo a possibilidade de quebra da hegemonia conservadora na
Inglaterra. Nos EUA, foi vitoriosa a greve dos metalúrgicos da indústria
automobilística contra a terceirização na GM.
13. Ao mesmo tempo, seguem as dificuldades de aplicação dos pacotes de ajuste na Europa
do Leste e Central, com expressivas votações recebidas pelos partidos ex-comunistas na
República Tcheca, e em particular com a votação obtida pelos comunistas na Rússia,
apesar do maciço apoio dado pelo FMI, BIRD, e pelos países do G-7. Essas votações
expressam o grande descontentamento popular com as chamadas políticas de ajuste
estrutural e liberalização da economia.
14. Esse avanço da resistência não significa ainda o questionamento da hegemonia
neoliberal. Mesmo porque muitos governos populares pressionados pela aliança mercados
financeiros globais e organismos internacionais (BIRD/FMI/OMC), mesmo vencendo eleições
contra coalizões conservadoras, adotam políticas que muito se assemelham ao receituário
neoliberal. Por outro lado, os setores democrático-populares não conseguiram forjar um
projeto alternativo global, malgrado o aumento da solidariedade nas fileiras sindicais,
como no apoio da AFL-CIO e da CLC (Canadá), à greve geral do dia 21/06.
A restruturação e os efeitos no
mundo do trabalho
15. A reestruturação industrial e econômica em curso na economia mundial tem sido
apontada como a terceira revolução industrial pois tem como alicerces básicos profundas
mudanças na estrutura produtiva, a emergência de novas fontes de riqueza, de novos
padrões de concorrência e mudanças radicais no perfil e composição do mercado de
trabalho.
16. A geração e a rápida difusão de inovações tecnológicas, organizacionais e
gerenciais sobre extensos setores econômicos são as características mais marcantes
desse processo de transformações produtivas.
17. O rejuvenescimento dos chamados setores dinâmicos (química e metalmecânica) e dos
setores tradicionais é acompanhado de fortes movimentos de desindustrialização
seletivas nos países desenvolvidos com a transferência para os países em
desenvolvimento de fases ou ciclos de produção com características menos nobres
(predadores do meio ambiente, grandes consumidores de energia, intensivos em mão-de-obra,
e dependentes de baixos salários).
18. A difusão destas inovações na estrutura produtiva não se reduz, contudo, à mera
incorporação de novas máquinas e equipamentos em processos produtivos existentes. Ela
envolve uma nova forma de produzir com a adoção de modernas técnicas de gestão da
produção (just-in-time, controle de qualidade total, C.E.P.), de gestão e organização
do trabalho (células de produção e gestão participativa) além da terceirização.
19. Essas mudanças promovem alterações profundas no perfil e na composição do mercado
de trabalho, acelerando a diferenciação entre os trabalhadores, com a criação de um
núcleo mais estável de multiqualificados, responsáveis pela condução da produção
nas novas empresas, e promovendo a desqualificação profissional do restante. Nos EUA,
apesar de um crescimento econômico continuado nos últimos 4 anos, da queda do
desemprego, do aumento da produtividade, os salários da indústria da transformação,
mais especificamente entre os trabalhadores diretamente vinculados a produção, caíram
18% entre 1973 e 1995 de acordo com BLS (Bureau de Estatísticas do Trabalho).
Ofensiva patronal contra os sindicatos
20. Essa diferenciação é fruto dessas mudanças mas também da ofensiva patronal sobre
o papel dos sindicatos na representação dos trabalhadores e o ataque sobre os sistemas
de contratação nacionais- horizontais e verticais- responsáveis por estabelecer
garantias básicas e fundamentais para o conjunto dos trabalhadores.
21. A ofensiva patronal tem abalado esses sistemas através da imposição de
negociações isoladas por empresa, com a criação e fortalecimento de vínculos
individuais em detrimento da negociação coletiva e da informalização das relações de
trabalho (tempo parcial, regimes especiais de contrato de trabalho), em particular para o
conjunto dos trabalhadores que ocupam posições secundárias no processo produtivo.
22. Além disso, uma das características mais nítidas dos impactos da reestruturação
industrial sobre o mundo do trabalho é o desemprego estrutural e crônico. A manutenção
de um patamar elevado de desemprego além de se tornar num dos maiores problemas sociais
no mundo contemporâneo atinge diretamente a organização sindical.
Conjuntura
nacional
23. O Plano Real segue a mesma lógica dos processos de ajuste neoliberal realizados na
Argentina, Chile, México e demais países da América Latina. Esse modelo de ajuste tem
colocado obstáculos ao pleno desenvolvimento democrático, à distribuição de renda e
à erradicação da pobreza, agravando os problemas sociais em todos esses países em que
foi implantado.
24. Os pilares do modelo neoliberal, em curso no país e na América Latina, são a
abertura econômica indiscriminada, a privatização de empresas estatais e de serviços
públicos, o desmonte dos instrumentos de regulação da atividade econômica privada e o
ataque aos direitos trabalhistas e às garantias sociais.
25. As experiências de ajuste neoliberal na América Latina têm contribuído para piorar
significativamente as condições de vida dos trabalhadores latino-americanos. Segundo
dados da CEPAL, 45,9% da população latino-americana se encontrava em situação de
pobreza em 1993, o que representa um total de 196 milhões de pessoas e um aumento
significativo da miséria em relação à década passada.
26. Os custos do avanço do modelo de ajuste neoliberal são a desestruturação produtiva
de amplos setores industriais e agrícolas, estagnação econômica, redução do emprego
no setor formal da economia, aumento da informalidade do trabalho e deterioração das
condições de vida de maioria dos trabalhadores.
27. O mercado de trabalho e todas as demais variáveis sociais são encaradas de forma
subordinada ao objetivo de estabilização via âncora cambial. A reforma trabalhista
deve, nessa visão, contribuir para se diminuir o chamado custo Brasil. Uma nova
invenção do empresariado e do governo, para mostrar que os salários dificultam a nossa
competitividade internacional. Do mesmo modo, a reforma educacional reduz a formação
para a cidadania, orientando-se exclusivamente pela ótica da eficiência e da
competitividade internacional.
28. A lógica do plano Real contribui para a consolidação dos níveis de pobreza e para
a manutenção da vergonhosa desigualdade na distribuição de renda. Ao restringir o
mercado interno, e desvalorizar a nossa força de trabalho através da flexibilização
trabalhista, o governo procura consolidar uma inserção internacional dependente,
conservadora e excludente de significativos setores da sociedade.
Aumento da concentração de renda e do desemprego
29. A posição internacional do Brasil em termos de indicadores sociais é desalentadora.
Nesse aspecto o país é um dos mais competitivos no mundo. Em recente relatório do PNUD,
o Brasil foi considerado o grande campeão de desigualdade social, vindo apenas atrás de
Botsuana. Segundo dados da ONU, o Brasil está entre os dez países do mundo com maior
número de pobres, sendo o quinto país com maior proporção de pobres em relação à
população total.
30. Atualmente o Brasil possui em torno de quarenta milhões de pobres, sendo que metade
desse contingente (20 milhões) são indigentes. Ou seja, a sua renda não é suficiente
nem mesmo para a satisfação das necessidades alimentares. Enquanto na década de 60 os
10% mais ricos ganhavam 34 vezes mais que os 10% mais pobres, na década de 90 essa
proporção subiu para 78 vezes.
31. O desemprego atinge mais de quatro milhões de trabalhadores, segundo dados do IBGE,
que subestimam o número de desempregados. Se utilizarmos a pesquisa SEADE/DIEESE, veremos
que só na região metropolitana de São Paulo, mais 1,3 milhão de trabalhadores estão
desempregados, correspondendo a uma taxa de desemprego de 15,9%.
32. Metade da força de trabalho é constituída por empregos precários, ou seja,
desprovida de quaisquer direitos sociais e trabalhistas. A taxa de rotatividade do
trabalho está em torno de 30%, o que significa que um terço da força de trabalho troca
de emprego anualmente. Esses dados comprovam a elevada flexibilidade do nosso mercado de
trabalho.
33. Os custos salariais somados aos encargos sociais no setor manufatureiro são muito
menores no Brasil que no mundo industrializado. Enquanto esse custo horário por
trabalhador é de US$ 16,17 no EUA e US$ 16,16 no Japão, na Alemanha ele chega a US$
25,44. No Brasil, o custo horário por trabalhador do setor manufatureiro é muito baixo,
US$ 2,52. Além do mais, a redução dos encargos sociais significa um aumento ainda maior
da instabilidade do emprego e uma dificuldade de financiamento de políticas sociais, como
a Previdência, por exemplo.
34. O recente incremento da produtividade nas empresas é portanto, resultado da
utilização cada vez mais predatória do trabalho na produção e do recurso à
demissões em massa de trabalhadores. Na indústria, entre 1989 e1995, houve um aumento de
produtividade da ordem de 47% e ao mesmo tempo foram eliminados mais de 1,3 milhões de
empregos.
Privilégios dos banqueiros e aumento das dívidas interna e externa
35. O sistema financeiro, além de ser agraciado com elevadas taxas de juros oferecidas
pelo Banco Central para rolar a dívida pública federal, foi beneficiado com o Proer.
Esse programa, segundo informações veiculadas pela imprensa, já custou ao Tesouro
Nacional mais de R$ 12 bilhões, somente para as operações que envolveram os bancos
Econômico e Nacional. O mesmo tratamento receberam os grandes usineiros e latifundiários
do país, com generosas renegociações de suas dívidas.
36. Essa política econômica beneficiária do grande capital especulativo - nacional e
internacional - promoveu um crescimento da dívida pública federal de mais de 120% em 15
meses (de dezembro de 1994 a março de 1996). Em março, a dívida pública federal
alcançou R$ 131 bilhões (cerca de 20% do PIB) e em dezembro do ano passado a dívida
líquida dos Estados e Municípios era de US$ 74,5 bilhões, com um crescimento de 23% em
apenas um ano.
37. A dívida externa, por sua vez, encontra-se em pouco mais de US$ 155 bilhões. No ano
passado, o país remeteu para os credores externos US$ 22 bilhões somente a título de
serviços da dívida. Esse agravamento das finanças públicas representa a variável mais
frágil para a garantia da estabilização, no médio e longo prazo, sendo fonte de
limitações do gastos inadiáveis na área social (educação, saúde, saneamento,
moradia, etc.) e de infra-estrutura econômica, fundamentais para garantir a retomada do
crescimento econômico.
38. O rigor fiscal só é exigido e aplicado quanto se trata dos interesses dos
trabalhadores, dos setores excluídos do mercado de trabalho ou dependentes dos serviços
públicos. O governo, para arcar com o forte crescimento dos juros da dívida pública,
vem reduzindo os gastos na área social e nos investimentos públicos geradores de
empregos, e trata as reformas estruturais (previdência, administrativa, etc) somente sob
a ótica fiscal.
39. As justificativas são de recuperação do equilíbrio fiscal, como condição
essencial, segundo o governo, para manter a estabilização. Frente a essa situação, o
funcionalismo público foi transformado, pelo governo e meios de comunicação, em
principais inimigos públicos da sociedade, como parte de uma grande ofensiva para
aprofundar o desmonte e a precarização de todos os serviços sociais, reduzindo ainda
mais os baixos salários e as condições de trabalho do funcionalismo público.
40. Essa política econômica restritiva - apesar do relativo afrouxamento dos juros desde
novembro do ano passado - aliada ao elevado desemprego tem favorecido a redução real dos
salários, especialmente a partir do início desse ano. O salário mínimo anunciado pelo
governo, de R$ 112,00, junto com o aumento de 15% para a previdência social, continuará
representando uma vergonha nacional e mais uma demonstração do descaso do governo FHC
com relação ao quadro de miséria e exclusão social do país. Mais de 20 milhões de
trabalhadores e 10,8 milhões de aposentados tem rendimentos de até um salário mínimo.
Com esse gesto, o governo manterá cerca de 30 milhões de cidadãos e suas famílias
submetidos à condição de pobreza absoluta.
41. Na área da política agrária, os massacres dos sem-terra de Corumbiara (RO) e de
Eldorado do Carajás (PA) expressam o descaso do governo FHC com a reforma agrária e a
sua conivência com a prática da eliminação dos excluídos do campo.
Avanço não-linear das políticas neoliberais
42. Nesses 16 meses do governo FHC, a aliança governista formada pelo PSDB, PFL, PMDB e
PPB, avançou significativamente na aprovação das reformas neoliberais. Todas as
mudanças constitucionais da área econômica foram aprovadas pelo Congresso Nacional.
Depois de concluir a venda da maioria da empresas da petroquímica, o programa de
privatização incorporou a Cia. Vale do Rio Doce, o transporte ferroviário, a malha
rodoviária e empresas do setor elétrico.
43. De todo modo, o executivo ainda não conseguiu definir um calendário para as reformas
administrativa e tributária e não tem qualquer previsão para a regulamentação das
mudanças constitucionais já aprovadas na área econômica.
44. Apesar do forte avanço da implementação das reformas neoliberais a agenda das
reformas, ao longo desse período, foi submetida a intensos processos de negociações e
concessões políticas e econômicas, sofrendo alterações de conteúdo importantes.
Essas negociações e conflitos, especialmente a relativa a Previdência, resultaram em
derrotas para o executivo e ao mesmo tempo em uma maior identidade política dos partidos
de centro-direita (PFL, PMDB e PPB), em detrimento do papel e peso político do PSDB.
45. Esse quadro político associado ao desaquecimento econômico, à proximidade do
calendário eleitoral e ao elevado desemprego rompeu, parcialmente, o forte apoio social
ao governo e ao mesmo tempo tornou o executivo mais dependente dos maiores partidos da
aliança para concluir o processo de reformas e garantir estabilidade ao mandato de FHC.
Cresce a
resistência popular
46. As pesquisas de opinião passaram a refletir a insatisfação popular e as reações
dos trabalhadores, tanto da cidade como do campo, passam à ordem do dia, como uma
característica do período.
47. No campo, as ocupações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e dos
sindicatos rurais, foram respondidas com extrema violência, como no Massacre de
Corumbiara e de Eldorado de Carajás. As manifestações de trabalhadores rurais por
Reforma Agrária e Política Agrícola - em particular o Grito da terra Brasil - foram
expressão da resistência popular e, por outro lado, da ausência de uma política
agrícola e de reforma agrária governamentais.
48. A greve geral de 21 de junho, um protesto que paralisou mais de 12 milhões de
trabalhadores em todo país, foi a principal resposta organizada dos trabalhadores. A
unidade entre as 3 principais centrais sindicais permitiu demonstrar a grande
insatisfação dos trabalhadores com a política econômica e cobrar do governo o
não-cumprimento das suas promessas de campanha: Emprego, Salário, Aposentadoria Digna,
Reforma Agrária, e a Manutenção dos Direitos dos Trabalhadores. Esse movimento provou o
potencial de uma ampla aliança dos trabalhadores, com os estudantes, movimentos
populares, e partidos progressistas, que através do Fórum de oposições apoiaram a
Greve.
Governo ensaia mudança de tática
49. As crescentes críticas ao descaso do governo com a política social, o aumento do
desemprego e as manifestações de trabalhadores tem produzido uma crescente inflexão da
política econômica. Essa inflexão está planejada para enfrentar as eleições em um
clima mais favorável. s reações dos setores mais díspares da sociedade.
50. O afrouxamento da política monetária começou em março, mas é também influenciado
pela resistência popular e dissenções internas do governo sobre a enfase dos próximos
2 anos: mais crescimento ou queda mais abrupta das taxas de inflação. A disputa se dá
em torno do que seria a melhor estratégia para garantir a reeleição de FHC.
51. O aumento recente das tarifas de importação, para uma série de setores ameaçados
pela concorrência internacional predatória dos Tigres asiáticos e da China, é uma
resposta defensiva ao desemprego gerado na indústria têxtil, de calçados, e de
brinquedos, mas também uma aposta contra o déficit na balança comercial. Essa medida
contraria a abertura comercial defendida pela equipe econômica nos últimos anos.
52. A forma de dar continuidade às reformas administrativa, tributária e previdenciária
não encontra unanimidade no governo. Ora procurando se recuperar das derrotas a partir da
rearticulação do rolo compressor azeitado pela mudança do regimento, que restringe os
DVS, ora reduzindo o alcance das reformas ou sua simplificação. A retomada da iniciativa
também acontece em duas frentes: aprovação de leis complementares e edição de medidas
provisórias que façam as mudanças essenciais, junto com a aceleração do programa de
privatizações para gerar o caixa que garanta a política de juros altos e câmbio
valorizado.
53. O governo vai jogar suas fichas nos candidatos da aliança governista mais
comprometidos com a continuidade de FHC. Ao mesmo tempo, tentará retomar a iniciativa no
campo, perdida para os trabalhadores rurais e os sem-terra. Volta-se a falar em não
desapropriar terras ocupadas e tenta-se demonizar os sem-terra. No campo sindical,
prepara-se uma nova lei de greve dos setores essenciais, que é um atentado ao direito de
greve e institucionaliza as multas. Procurando amordaçar e fechar os sindicatos.
54. O Ministro do Trabalho comemorou o fim do reajuste automático - o resíduo do IPC-R -
e falou em fim das negociações salariais na data-base, tanto nas estatais como no setor
privado. A ordem é não conceder reajustes iguais ou maiores que a inflação dos
últimos 12 meses.
55. Os governos estaduais centralizaram as verbas e ações na área de comunicação e
marketing de todos os órgãos da administração direta, estatais e empresas de economia
mista nos seus comandos políticos dos governos estaduais. O governo FHC está fazendo a
mesma coisa em nível nacional e vai gastar só no segundo semestre de 1996, 250 milhões
de reais nos diferentes veículos de comunicação para garantir o respaldo da sociedade
ao avanço do seu projeto neoliberal. Enquanto isso, o campo democrático-popular também
investe milhões de reais, só que de forma dispersa, apenas em campanhas visando o
imediato e dirigidas a setores específicos da sociedade".
Plano
de Ação
Unificar as lutas
Combater o desemprego
Por um aumento
geral dos sal rios
Contra a precarização das relações de trabalho
Jornada de 40 horas semanais
55. A greve geral de 21 de junho foi a mais expressiva
condenação popular à política econômica do Governo, que produz arrocho dos salários,
aumento da exclusão social, sucateou setores inteiros da economia, elevou o desemprego
para taxas recordes(16.1% na região metropolitana), concentra renda e riqueza, aumenta a
miséria e a violência no campo e na cidade.
56. A Greve Geral teve forte adesão popular, contribuiu para alterar a agenda nacional,
obteve grande repercussão e solidariedade no Movimento Sindical Internacional e marcou a
importância da unidade de ação com o movimento estudantil, partidos políticos de
oposição, movimento popular e outras entidades da sociedade civil.
57. Com a proximidade das eleições municipais de outubro, vamos viver uma conjuntura
marcada pela disputa política e o debate sobre os diferentes projetos para o país, em
particular na disputa em São Paulo.
58. Para conter o avanço das políticas neoliberais, à ameaça de precarização nas
relações de trabalho, combater o desemprego, e enfrentar todos os ataques que os
trabalhadores vem sofrendo, por parte do governo e das elites é necessário , organizar
como desdobramento da Greve Geral uma jornada de lutas, com o objetivo de debater e
consolidar na sociedade brasileira a necessidade da reforma agrária, mais empregos,
recuperação dos salários, manutenção dos direitos dos trabalhadores e justiça
social.
59. Como na Greve do dia 21, essa jornada exige uma intensa mobilização e unidade com
amplos setores da sociedade.
60. Os pontos dessa jornada que deve envolver todas as instâncias e sindicatos filiados
à CUT são os seguintes:
Jornada de lutas
1 - Intensificar as lutas das categorias, dando ênfase na luta pela conquista da
recuperação dos salários, redução da jornada de trabalho e manutenção dos direitos,
no período de julho a setembro.
2 - Construir, a partir da luta por salário e emprego, a unificação das Campanhas
Salariais do período de setembro a novembro.
3 - Organizar uma grande Showmício com as bandeiras da Greve Geral em São Paulo.
4 - Intensificar a organização da luta pela Reforma Agrária e de uma Política
Agrícola que valorize a agricultura familiar, a assistência técnica, subsídios,
incentivos, educação e saúde aos trabalhadores rurais. Orientar os sindicatos filiados
para apoiarem e organizarem essa luta, sob as bandeiras da CUT, preparando caravanas de
visitas aos assentamentos dando respaldo político e material aos trabalhadores sem terra.
5 - Articular com o Fórum das Oposições e outras entidades da sociedade civil uma
campanha de um milhão de assinaturas pela jornada de 40 horas.
6 -Organizar conjuntamente com as entidades do movimento popular e as Centrais sindicais
uma Caravana à Brasília contra o desemprego.
7 - Organizar uma grande manifestação de mulheres, contra a miséria por políticas
sociais.
8 - Participar ativamente, em 7 de setembro, do Grito dos Excluídos, convocado pela
Igreja.
9 - Organizar um grande evento de denúncia e combate ao trabalho infantil.
10 - Na segunda quinzena de novembro, organizar uma conferência sobre Juventude e Mercado
de Trabalho.
11 - 12 de outubro - Dia Nacional de Luta por Creche - organizar um grande evento em
defesa dos direitos das crianças e contra o trabalho infantil.
12 - 20 de novembro - Dia Nacional da Consciência Negra - organizar um grande evento por
igualdade de oportunidades de negros e negras no mercado de trabalho e de combate ao
racismo.