O Efêmero Distributivismo do Plano Real

Autor: Antonio Prado

Há um debate sobre os efeitos do plano Real sobre a distribuição da renda. O governo afirma que com o fim do imposto inflacionário os trabalhadores de baixa renda deixaram de ser expropriados pela hiperinflação, o que implicou na diminuição de milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza e incorporadas ao mercado de consumo. De fato, esses efeitos ocorreram na primeira fase do Real, em que houve uma coincidëncia da queda da inflação com um rápido crescimento da economia, dos empregos e dos rendimentos reais. Nessa fase expansiva do Real, os rendimentos dos 10% mais pobres chegaram a alcançar ganhos reais de até 47%.

No entanto, se houve alguma distribuição da renda pessoal, não se pode afirmar o mesmo em relação à distribuição funcional da renda, que relaciona o que é absorvido pelos proprietários em forma de lucros, juros e aluguéis e pelos trabalhadores em forma de salários. Isto porque os juros reais tiveram um crescimento drástico, no sentido de atrair capitais internacionais para sustentar a âncora cambial, os lucros cresceram com a expansão da economia e também os aluguéis .

Mas esse efeito distributivista na renda pessoal foi efêmero e esgotou-se assim que o governo reverteu a trajetória de crescimento da economia, a partir de março de 1995, iniciando abruptamente uma recessão, após verificar que não era sustentável manter déficts de transações correntes imensos e que seria cada vez mais difícil financiá-los após a quebra do México, que melindrou os capitais especulativos que afluiam para as economias latino-americanas. Entramos, então, na fase recessiva do Plano Real, com queda do PIB, aumento contínuo das taxas de desemprego e declínio dos rendimentos, nesse caso, agravado pela desindexação dos salários.

Esse aumento da concentração da renda, em função da recessão, pode ser medido através do índice de Gini. Os dados da PED-Pesquisa de Emprego e Desemprego realizada em convênio pelo Seade e Dieese revelam que houve uma queda do índice de Gini no período de agosto de 1994 até o terceiro trimestre de 1995, sinalizando a melhora na distribuição da renda. No entanto, a partir do final de 1995 e início de 1996, o Gini se eleva, revelando a retomada de uma trajetória concentradora de renda. Ajustes estatísticos nessas séries confirmam a forte relação entre crescimento econômico e distribuição de renda: recessão gera concentração e distribuição de renda acompanha a expansão da produção.

Está clara, portanto, a necessidade de se manter a economia em crescimento para se poder consolidar ganhos distributivos. Mesmo assim, o crescimento, em si, não garante que os segmentos excluídos do mercado de trabalho tenham ganhos automáticos de renda. Nesses casos, políticas diretas de distribuição, como os programas de renda mínima, são imprescindíveis. No entanto, a possibilidade de uma melhora contínua na distribuição da renda está hoje cada vez mais comprometida, na medida em que ela exige uma economia em crescimento sustentado e vigoroso. Em outro sentido, as armadilhas da âncora cambial sinalizam um crescimento econômico pífio para os próximos anos, já que os juros reais tendem a continuar elevados, deprimindo os investimentos produtivos e desviando recursos fiscais para pagamento dos encargos da dívida pública ( que tem crescido explosivamente), impedindo a realização de políticas sociais mais abrangentes e permanentes.

*Antonio Prado é coordenador do DIEESE

(Depto Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos)