AS USINAS NUCLEARES DE ANGRA DOS REIS
As usinas termo nucleares, assim como todos os
grandes empreendimentos energéticos, envolvem riscos ambientais
e sociais importantes. Uma grande hidrelétrica, por exemplo,
provoca a inundação de terras férteis, o deslocamento de
populações tradicionais e mudanças profundas no ambiente
natural, embora represente um esforço econômico muito grande.
Isso não leva imediatamente à conclusão de que ela não deve
ser construída. Entretanto, seu planejamento, construção e
gerenciamento implicam em estudos e discussões aprofundadas com
todos os atores sociais envolvidos. As populações e comunidades
atingidas pelos empreendimentos energéticos lutam, com cada vez
mais conseqüência, contra os interesses de poderosos lobbies
econômicos, que não incluem em sua contabilidade os danos
ambientais e sociais que provocam. A lógica capitalista,
pública ou privada, recomenda privatizar os lucros e socializar
os prejuízos.
Com as usinas nucleares de Angra dos Reis
acontece algo parecido, agravado pelo segredo que envolve o setor
e pela incerteza quanto às possibilidades de acidentes
catastróficos que acompanharam algumas usinas no primeiro mundo.
Mesmo sem levar em conta o risco atual e futuro representado pelo
material radioativo estocado nas instalações, a própria
localização da usina interferiu significativamente com a
vocação turística da região e com a estrutura social e
institucional da comunidade, sem contar os danos ambientais a que
foi submetido aquele litoral, por conta de todas as obras civis.
Nada disso foi discutido com a população, não se produziu um
Relatório de Impacto Ambiental, não se levou em conta nada
além da vontade dos empreendedores. Com o fim da Ditadura
Militar as pessoas começaram a lutar para que os erros do
passado não tivessem conseqüências ainda piores. Assim, muitas
pessoas são contra a continuidade das obras de conclusão de
Angra II e outras ainda pretendem que se feche Angra I.
Os trabalhadores em energia nuclear não
costumam ver com bons olhos as atividades daqueles que, pelo
menos aparentemente, pretendem acabar com seus postos de
trabalho. Por outro lado, os próprios empregados da usina fazem
parte da comunidade e participam direta ou indiretamente de suas
preocupações. No meio desse fogo cruzado, os trabalhadores
tendem a ser chantageados pelos dois lados, principalmente pelos
gestores dos empreendimentos nucleares.
Mas existe outro caminho que pode trazer
benefícios a todos, fugindo do confronto com os aliados naturais
dos trabalhadores: a população, os democratas e as demais
pessoas preocupadas com a Vida, a saúde do trabalhador e o meio
ambiente. Esse caminho de solidariedade implica em trabalhar em
Angra dos Reis por quatro pontos básicos, que a CONTREN
tem reafirmado todas as vezes que foi chamada a discutir a
questão:
1- Criação de um canal permanente, e
institucionalizado, entre FURNAS e a comunidade, que envolva
todas as informações necessárias sobre as condições de
funcionamento da usina.
2- Criação de um Plano de Emergência,
gerenciado pela comunidade e custeado por FURNAS, de acordo com
os padrões internacionais de segurança nuclear.
3- Criação, por parte da comunidade,
de uma Rede Cidadã de Vigilância Radiológica que permita
detectar, com autonomia, qualquer contaminação radioativa do
meio ambiente.
4- Pagamento, de FURNAS para a
comunidade, de um montante a ser amplamente discutido, como
ressarcimento econômico pela localização de uma usina nuclear
em área turística.
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